Da dor ao propósito: por que Michelle Nascimento não desistiu — e não desistirá.

CORAGEM. Após anos marcados por ataques, perdas e reconstrução, a cantora, pastora, mãe e avó fala sobre os momentos em que pensou em abandonar tudo, sobre a fé que a sustentou e a coragem que encontrou para se levantar, continuar e transformar experiências dolorosas em propósito e atuação na vida pública.


São 21 anos de uma trajetória construída na música cristã, com atuação em todo o Brasil e também internacionalmente.

Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Michelle Nascimento atravessou o país de Norte a Sul e de Leste a Oeste, passando por igrejas, congressos, conferências, grandes eventos e diferentes cidades brasileiras, levando por meio de sua voz a música cristã e a Palavra de Deus.

Sua trajetória também ultrapassou as fronteiras do Brasil. Michelle esteve em diferentes países para gravar projetos audiovisuais, participar de eventos, ministrar e levar sua música e sua fé a outros povos.

Entre os lugares que fizeram parte dessa caminhada estão Estados Unidos, Israel, Portugal, Inglaterra — incluindo Londres —, Espanha, Bélgica, Alemanha, França e Chile.

Foram anos de viagens, gravações, ministrações, encontros e experiências que ajudaram a construir uma história que começou no Brasil, mas alcançou diferentes lugares do mundo.

Ao longo dessa trajetória, Michelle também construiu uma presença expressiva no ambiente digital. Somando o alcance de suas músicas, videoclipes e demais projetos musicais no YouTube e nas plataformas digitais, seu trabalho ultrapassa a marca de 200 milhões de streams e visualizações.

São milhões de pessoas alcançadas por canções que atravessaram gerações, igrejas, cidades e fronteiras, levando mensagens de fé, esperança e superação.

Mais do que números, para Michelle, cada reprodução representa a possibilidade de uma vida ser alcançada por meio da música e da Palavra de Deus.

Entre igrejas, palcos, gravações, projetos audiovisuais e canções que fizeram parte da vida de milhares de pessoas, Michelle Nascimento consolidou seu nome no cenário da música gospel brasileira.

Mas por trás da artista existe também a história de uma mulher.

Mãe, avó, cantora, compositora e, hoje, também pastora, Michelle chega aos 41 anos depois de atravessar um dos períodos mais difíceis de sua trajetória.

Durante muito tempo, preferiu não falar detalhadamente sobre o que viveu. Considerava desnecessário transformar suas dores em exposição pública.

Hoje, porém, decidiu contar parte dessa história.

Não para alimentar conflitos. Não para promover vingança. E muito menos para perseguir aqueles que pensam diferente dela.

Michelle diz que resolveu falar porque acredita que aquilo que quase a fez desistir pode, agora, transformar-se em propósito.

O posicionamento político e o início de um período difícil

Michelle nunca escondeu suas convicções.

Cristã, conservadora e identificada politicamente com a direita, ela afirma que seu posicionamento nasceu do amor pelo Brasil e da insatisfação diante de problemas como corrupção, injustiça, desigualdade e má utilização dos recursos públicos.

“Eu amo o meu país. Sou patriota e me posiciono porque acredito no Brasil. O brasileiro é um povo guerreiro, trabalhador e merece uma nação que combata a corrupção, respeite seus cidadãos e trate com responsabilidade aquilo que pertence ao povo.”

A partir de 2022, quando passou a manifestar publicamente suas posições políticas com maior intensidade, Michelle relata que começou a enfrentar uma forte reação.

Segundo a cantora, parte das críticas permaneceu no campo político e ideológico. Outras manifestações, entretanto, teriam ultrapassado, em sua avaliação, os limites da divergência e atingido diretamente sua honra, sua reputação e sua família.

Michelle afirma ter preservado documentos, registros e capturas de tela relacionados a publicações e manifestações feitas naquele período, inclusive conteúdos que posteriormente deixaram de estar disponíveis.

Entre páginas e veículos que publicaram conteúdos a seu respeito esteve o Fuxico Gospel.

Michelle afirma considerar que determinadas publicações feitas naquele período ultrapassaram os limites da crítica legítima e contribuíram para um ambiente que ela vivenciou como profundamente hostil.

Também surgiram, segundo seu relato, comentários utilizando expressões ofensivas e defendendo publicamente que ela deveria ser presa.

Michelle afirma ainda ter recebido mensagens hostis que lhe provocaram preocupação e medo.

Uma das maiores dores, segundo ela, foi perceber que parte das críticas e dos julgamentos também vinha de pessoas que professavam a mesma fé cristã.

Para uma mulher que construiu praticamente toda a sua trajetória profissional dentro da música gospel e das igrejas, isso teve um peso particularmente difícil.

Uma viagem aos Estados Unidos

Em meio àquele período, Michelle viajou aos Estados Unidos após receber um convite para participar de uma conferência.

A viagem ocorreu em razão desse compromisso.

Foi enquanto estava nos Estados Unidos que, segundo Michelle, a repercussão relacionada ao seu posicionamento político aumentou no Brasil.

Diante das notícias, publicações e comentários que chegavam até ela, Michelle relata que sua mãe, familiares, lideranças e pessoas próximas ao seu ministério demonstraram preocupação e aconselharam que ela permanecesse por mais algum tempo no país.

Durante sua estadia, Michelle contou com o acolhimento de amigos, irmãos na fé, pastores e igrejas.

“Em um momento extremamente delicado da minha vida, Deus colocou pessoas no meu caminho que abriram as portas, me acolheram, oraram comigo e estiveram ao meu lado. Eu jamais esquecerei disso.”

A chegada de Lavinea Nascimento

Em janeiro de 2023, sua irmã, Gisele Nascimento, também cantora cristã, acompanhou Lavinea Nascimento, única filha de Michelle, em sua ida aos Estados Unidos.

Para Michelle, a chegada da filha significou muito mais do que companhia.

“A Lavinea é minha única filha, minha companheira e minha amiga. Ela sabia o que eu estava enfrentando e queria estar perto de mim, me dando suporte naquele momento.”

Mãe e filha permaneceram juntas nos Estados Unidos durante parte daquele período e buscaram conduzir suas respectivas situações migratórias pelos meios legais e procedimentos disponíveis perante as autoridades norte-americanas, inclusive por meio de pedidos e extensões cabíveis, respeitando os trâmites e as decisões das autoridades competentes.

Posteriormente, diante do resultado referente ao seu próprio procedimento migratório, Michelle retornou ao Brasil.

A situação de Lavinea, por sua vez, seguiu seu próprio curso perante as autoridades norte-americanas.

Durante aquele período, Michelle e sua filha também receberam o apoio de Calyston, companheiro de Lavinea, que as acolheu e lhes ofereceu suporte nos Estados Unidos.

Michelle guarda profunda gratidão por esse acolhimento.

“Sou muito grata ao Calyston e a todas as pessoas que nos acolheram. Deus usou amigos, pastores, igrejas e pessoas que estiveram conosco quando mais precisávamos.”

Posteriormente, Lavinea permaneceu nos Estados Unidos e, ao lado de Calyston, construiu sua família. Dessa união nasceu Rogger Zion, primeiro neto de Michelle.

A distância familiar tornou-se uma das partes mais dolorosas dessa história.

Há cerca de um ano, Michelle não vê pessoalmente sua única filha nem seu neto.

Para uma mãe e avó que sempre encontrou na família um dos pilares de sua vida, são ausências que carregam um peso difícil de traduzir.

“Já faz um ano que eu não vejo a minha filha e o meu neto. Isso dói muito. A Lavinea é minha única filha, minha companheira e minha amiga, e o Rogger Zion é meu primeiro neto. Existem momentos que não voltam, e estar longe deles durante todo esse tempo é uma das coisas que mais doem em toda essa história.”

Mesmo diante da distância, Michelle afirma que procura preservar os vínculos familiares e encontra na fé forças para atravessar esse período.

“Eu creio que Deus está cuidando de nós, mesmo quando estamos longe uns dos outros. Ele está cuidando da minha filha, do meu neto e da nossa família. É essa fé que continua me sustentando.”

Para Michelle, os acontecimentos daqueles anos produziram mudanças profundas não apenas em sua carreira, mas também na dinâmica de sua família.

Ainda assim, ela escolheu continuar acreditando que a distância não será maior do que os vínculos que construíram juntos.

Quando as consequências ultrapassam a política

Para Michelle, os acontecimentos daquele período não ficaram restritos às redes sociais ou ao debate político.

Ela relata consequências pessoais, emocionais, familiares, profissionais e financeiras.

Uma das consequências mais dolorosas, segundo Michelle, atingiu diretamente sua carreira.

Depois de anos vinculada à MK Music, gravadora que fez parte de uma fase importante de sua trajetória artística, Michelle afirma que sua permanência nos Estados Unidos, naquele momento motivada também pelo receio que sentia em relação à sua segurança caso retornasse ao Brasil, acabou interferindo na continuidade de sua relação profissional com a gravadora.

Segundo Michelle, existia estrutura e possibilidade para que novos trabalhos e gravações fossem realizados nos Estados Unidos. Ainda assim, naquele contexto, a direção artística da gravadora optou pela não continuidade da relação contratual.

“Eu não escolhi simplesmente encerrar aquele ciclo. Naquele momento, eu estava nos Estados Unidos e tinha muito receio de retornar ao Brasil por tudo o que estava acontecendo. Existia possibilidade de continuarmos trabalhando e gravando nos Estados Unidos, mas a gravadora decidiu não prosseguir com o contrato. Para mim, perder aquele contrato significou também perder uma parte muito importante do meu trabalho justamente quando eu já estava enfrentando tantas outras situações.”

Michelle relaciona essa perda profissional ao conjunto de consequências que afirma ter vivido após intensificar seu posicionamento político. Em sua avaliação, o ambiente de hostilidade e insegurança daquele período produziu efeitos que ultrapassaram as redes sociais e alcançaram diretamente sua vida profissional.

“Na minha percepção, eu não perdi apenas um contrato. Eu estava vendo as consequências de tudo aquilo alcançarem também a minha profissão e uma carreira que levei muitos anos para construir. Foi muito doloroso.”

Os anos seguintes — especialmente 2023, 2024 e 2025 — foram, segundo ela, marcados por um profundo processo de reorganização da vida e da carreira.

Foi necessário reconstruir profissionalmente.

Reconstruir relações.

Reconstruir emocionalmente.

E, principalmente, encontrar forças para continuar.

“Eu pensei em desistir de absolutamente tudo”

Mesmo depois de mais de duas décadas de carreira, Michelle admite algo que durante muito tempo manteve reservado.

Houve momentos em que pensou em desistir.

Da carreira. Do ministério. Dos projetos. De absolutamente tudo.

“Eu pensei em desistir da minha carreira, do meu ministério, de absolutamente tudo. Foram situações que atingiram diferentes áreas da minha vida, inclusive relações familiares. Durante muito tempo eu não quis falar sobre isso publicamente porque não achava necessário me expor.”

Segundo Michelle, algumas feridas permaneceram durante anos.

E uma das etapas mais difíceis de sua reconstrução foi o perdão.

“Há pouco tempo eu entendi que precisava liberar perdão sobre muitas coisas que aconteceram. Perdoar não significa dizer que aquilo não doeu. Significa decidir que aquela dor não vai continuar governando a nossa vida.”

Hoje, ao olhar para trás, Michelle diz perceber uma mulher diferente daquela que atravessou os momentos mais difíceis.

“Tudo o que aconteceu me fez uma mulher mais forte. Eu não estou contando minha história para alimentar ódio. Estou contando porque sobrevivi a um período que mudou profundamente a minha vida e porque acredito que aquilo que vivemos também pode gerar propósito.”

Não se trata de vingança

Ao decidir falar publicamente, Michelle considera fundamental estabelecer um limite muito claro.

Ela não deseja perseguir quem pensa diferente.

Não pretende silenciar jornalistas.

Não quer impedir críticas.

Não defende perseguição contra pessoas de esquerda, de direita ou de qualquer corrente política.

E também não pretende utilizar sua experiência pessoal como instrumento de vingança.

“Eu sou a favor da liberdade de expressão. Sou a favor da liberdade de imprensa, da crítica, da investigação, da denúncia de boa-fé e do jornalismo responsável. Uma democracia precisa garantir esses direitos.”

Sua preocupação está na utilização da internet para fabricar ou disseminar deliberadamente informações falsas capazes de causar graves danos à honra, à imagem, à reputação, à família ou à atividade profissional de uma pessoa.

Para Michelle, a dimensão alcançada pelas redes sociais tornou essa discussão urgente.

Uma informação pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas. Mesmo quando corrigida ou retirada posteriormente, seus efeitos podem continuar durante anos.

“A internet se tornou uma ferramenta extraordinária, mas também pode se transformar em uma arma quando utilizada para destruir deliberadamente alguém. Liberdade de expressão precisa ser preservada. Mas liberdade não pode significar licença para fabricar uma mentira e destruir a reputação e a vida de uma pessoa.”

Michelle ressalta que qualquer responsabilização deve ocorrer dentro da Constituição, da legislação brasileira, do devido processo legal e com garantia do direito de defesa.

Da dor ao propósito

É justamente nesse ponto que uma experiência profundamente pessoal começa a encontrar uma dimensão pública.

Hoje, candidata a deputada federal pelo Rio de Janeiro, Michelle Nascimento afirma que pretende transformar parte daquilo que viveu em propostas voltadas à proteção de outras pessoas.

Entre suas preocupações está a proteção da honra, da imagem e da reputação no ambiente digital, especialmente diante da fabricação e disseminação deliberada de informações falsas capazes de produzir graves consequências pessoais, familiares e profissionais.

Para Michelle, qualquer aperfeiçoamento da legislação nessa área deve caminhar lado a lado com a preservação da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa, da crítica, da denúncia de boa-fé e do jornalismo responsável.

“Quem pensa diferente de mim tem todo o direito de pensar diferente. Quem quiser me criticar tem o direito de me criticar. Isso faz parte da democracia. O que precisamos enfrentar é a utilização deliberada da mentira para destruir a vida e a reputação de uma pessoa.”

Michelle afirma que sua atuação política não pretende se limitar a essa pauta.

Famílias, mulheres, crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre aqueles que pretende contemplar em seus projetos e propostas.

“Quero trabalhar por leis que cuidem do nosso povo brasileiro, das nossas famílias, da nossa dignidade e também do nosso nome. Quero transformar experiências que vivi em instrumentos que possam proteger outras pessoas.”

A fé que permaneceu

Apesar de tudo o que relata ter vivido, Michelle continua sendo cantora.

Continua gravando.

Continua lançando músicas.

Continua servindo à igreja.

E acrescentou à sua trajetória uma nova missão: o ministério pastoral.

Aos 41 anos, é cantora, compositora, pastora, mãe e avó.

Ao entrar na vida pública, afirma que não pretende abandonar nenhuma dessas identidades.

Para Michelle, política não substitui sua fé, sua família ou sua música. É uma nova forma de utilizar a voz que construiu durante mais de duas décadas.

“Eu não quero que as pessoas conheçam apenas aquilo que aconteceu comigo. Quero que conheçam aquilo que Deus fez em mim depois de tudo. Eu perdoei, me levantei e continuei. Deus nunca deixou de me amparar. Ele está cuidando de mim, da minha família, da minha filha e dos meus netos.”

E, depois de tudo, Michelle escolhe uma palavra para representar esse novo capítulo:


° Coragem para continuar quando desistir parecia mais fácil.

° Coragem para perdoar sem apagar aquilo que viveu.

° Coragem para continuar cantando.

° Coragem para continuar servindo.

° Coragem para se posicionar.

° Coragem para transformar dor em propósito.

“Se aquilo que eu vivi puder contribuir para proteger outras pessoas e outras famílias, então uma parte da minha dor terá se transformado em propósito.”

Depois de 21 anos de carreira e mais de 200 milhões de streams e visualizações, Michelle Nascimento continua usando aquilo que sempre esteve no centro de sua trajetória: a sua voz.

E sua história, agora, não é somente sobre aquilo que tentou fazê-la parar.

É sobre a CORAGEM que a fez continuar.

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